Dia da Cultura Nacional: a riqueza das nossas raízes como expressão da identidade e da criatividade da moda brasileira

5 de novembro – Celebrar a cultura brasileira é reconhecer a diversidade de nossas origens, valorizar nossos saberes ancestrais e compreender a moda como uma das mais potentes expressões da identidade de um povo.

O Brasil é um país de extraordinária diversidade cultural. Nossa identidade foi construída ao longo dos séculos por encontros, trocas, conflitos e influências de diferentes povos, que contribuíram para formar um patrimônio cultural plural, presente na música, na dança, na gastronomia, nas artes, na arquitetura e, especialmente, nas manifestações do vestuário e das manualidades.

A formação cultural brasileira é marcada pela presença dos povos indígenas, dos povos africanos e de diferentes correntes migratórias europeias, asiáticas e de outras regiões do mundo. Entretanto, é fundamental reconhecer que essa diversidade não representa apenas uma mistura de influências: ela também carrega histórias de resistência, preservação de territórios, conhecimentos tradicionais e lutas pelo reconhecimento cultural.

Nesse contexto, os povos indígenas ocupam um lugar fundamental na construção da identidade brasileira. Muito antes da formação do Brasil como nação, esses povos já desenvolviam conhecimentos sofisticados sobre a natureza, os materiais, as cores, os pigmentos, as fibras e as técnicas artesanais. Seus saberes estão presentes na cestaria, na tecelagem, na cerâmica, nas pinturas corporais, nos grafismos e na utilização de elementos naturais, revelando uma relação profunda entre cultura, território e identidade.

É importante compreender que essas manifestações não pertencem apenas ao passado. Os povos indígenas são contemporâneos, produzem cultura, reinventam tradições e participam ativamente da construção de novas linguagens artísticas e criativas. Seus conhecimentos representam um patrimônio vivo que merece respeito, visibilidade e reconhecimento.

A ancestralidade como inspiração para a moda brasileira

A moda é uma linguagem cultural capaz de traduzir comportamentos, identidades, memórias e transformações sociais. No Brasil, essa linguagem encontra um campo criativo singular na diversidade de nossas raízes.

A influência indígena, africana e europeia, somada às contribuições de diferentes comunidades e manifestações regionais, constitui um repertório estético de enorme potencial para o design de moda. As cores da natureza, os grafismos, as tramas, os bordados, as rendas, as fibras naturais, as técnicas de tingimento e as diferentes formas de construção têxtil compõem um universo de possibilidades para a criação contemporânea.

Nossa riqueza cultural também se manifesta nas mãos de artesãos, bordadeiras, rendeiras, tecelãs, crocheteiras e tantos outros profissionais que preservam conhecimentos transmitidos entre gerações. São saberes que transformam matérias-primas em objetos carregados de significado, história e pertencimento.

O bordado, a renda, o crochê, a tecelagem manual, a cestaria e as técnicas de reaproveitamento têxtil representam muito mais do que recursos decorativos. São expressões de identidade, patrimônio imaterial, criatividade e trabalho. Cada ponto, trama ou entrelaçamento revela uma relação entre o fazer manual e a memória coletiva.

Manualidades: patrimônio cultural e potência criativa

Em um cenário internacional marcado pela produção industrial em larga escala e pela velocidade das tendências, as manualidades brasileiras representam um diferencial criativo de grande relevância.

O fazer artesanal resgata o tempo da criação, valoriza o trabalho humano e estabelece uma relação mais consciente com os materiais e os processos produtivos. Ao incorporar técnicas tradicionais ao design contemporâneo, a moda brasileira encontra caminhos para desenvolver produtos autorais, exclusivos e culturalmente significativos.

Essa aproximação entre tradição e inovação amplia as possibilidades do design nacional. O trabalho de comunidades artesãs, cooperativas, pequenos produtores e designers demonstra que a preservação dos conhecimentos tradicionais pode dialogar com novas tecnologias, modelagens, materiais e propostas estéticas.

Entretanto, essa valorização precisa acontecer de maneira ética. A utilização de referências culturais, especialmente indígenas e de comunidades tradicionais, exige reconhecimento de autoria, respeito aos significados simbólicos, participação das comunidades e repartição justa dos benefícios gerados. A inspiração cultural não pode se transformar em apropriação ou exploração de conhecimentos coletivos.

O Brasil no cenário mundial da moda

O potencial criativo brasileiro ultrapassa nossas fronteiras. O país possui características culturais, ambientais e produtivas que podem contribuir significativamente para o desenvolvimento da moda mundial.

Nossa diversidade regional, a riqueza dos materiais, a criatividade dos profissionais e a tradição artesanal oferecem possibilidades para uma moda que valorize a identidade, a originalidade e a responsabilidade socioambiental.

Em um momento no qual o mercado internacional amplia as discussões sobre sustentabilidade, rastreabilidade, economia circular e valorização do trabalho artesanal, o Brasil tem a oportunidade de apresentar soluções criativas fundamentadas em conhecimentos que já fazem parte de sua história.

A moda circular, o upcycling, o reaproveitamento de materiais, a valorização de peças vintage e a produção artesanal também dialogam com essa perspectiva. São práticas que demonstram como a cultura pode contribuir para transformar os padrões de consumo e estimular novas formas de produzir, criar e vestir.

A valorização da moda brasileira não deve se limitar à exportação de produtos ou à reprodução de tendências internacionais. Seu verdadeiro potencial está na capacidade de desenvolver uma identidade própria, reconhecendo a diversidade cultural como fonte de conhecimento, inovação e expressão estética.

Cultura, identidade e o futuro da moda

Celebrar o Dia da Cultura Nacional é, portanto, reconhecer que a moda não é apenas uma indústria ou um fenômeno de consumo. É também manifestação artística, linguagem social, memória e patrimônio cultural.

É compreender que uma peça bordada à mão, uma renda produzida artesanalmente, uma trama de fibras naturais ou uma roupa reconstruída por meio do upcycling podem carregar histórias e conhecimentos que atravessam gerações.

Nossa maior riqueza está na pluralidade de nossas origens e na capacidade de transformar referências culturais em novas possibilidades criativas, sem perder de vista o respeito às suas histórias e aos seus protagonistas.

O Brasil possui uma identidade cultural potente, construída por muitos povos e continuamente reinventada. Valorizar nossas raízes é reconhecer o trabalho de quem preserva os saberes tradicionais, incentivar a produção autoral e fortalecer uma moda que dialogue com o mundo sem deixar de expressar sua própria identidade.

Neste 5 de novembro, que a cultura brasileira seja celebrada não apenas como herança, mas como força viva de criação, resistência e transformação. Porque a moda brasileira tem raízes profundas, mãos criativas e um patrimônio cultural capaz de inspirar o mundo.

Design e Moda – Cultura, identidade e criatividade em movimento. 🇧🇷

Cida Miquelão
Cida Miquelão

Cida Miquelão (Maria Aparecida Miquelão de Freitas) é designer de moda formada pela Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), mestranda, figurinista e pesquisadora em moda circular, upcycling e reaproveitamento têxtil. No Design e Moda, escreve sobre moda, sustentabilidade, brechós, inspirações e eventos.

Designer de moda (UEMG) e mestranda · Figurinista em 7 produções audiovisuais · 25 anos no mercado de moda · Curadora do Brechó Garimpo Chic BH

Formação

• Bacharelado em Design de Moda, Escola de Design da UEMG (2020–2026). Trabalho de conclusão: Upcycling na Moda: Desafios do Design Criativo, com orientação da Dra. Heloisa Nazaré dos Santos.
• Técnica em Patologia Clínica pelo COLTEC da UFMG.

Pesquisa, ensino e extensão na UEMG

• PAPq/UEMG: autora da pesquisa Ferramentas para multiplicadores em design de moda: estudo de casos na Região Metropolitana de Belo Horizonte (2022–2024), sobre o bordado como fonte de renda, preservação do saber manual e pertencimento de um grupo 50+.
• PAEx/UEMG: integrante do projeto Capacitação em costura de moda íntima autossustentável para a formação do núcleo de agentes multiplicadores em Conselheiro Pena (MG), em andamento desde 2024.
• Viver de Costura: docente das disciplinas Laboratório de Criação e Design e Estilismo para uma turma de 20 alunas em Conselheiro Pena (MG), com 36 horas-aula.
• Montagem da exposição de figurinos da Semana E-Dentro e do Minas Trend (2023) e participação na exposição Experimentação e Formas: a moda como uma expertise da Escola de Design, Coleção Metamorfose (2024).

Figurino

• Eterna Possessão (2024): figurinista, filme.
• Show da Gente (2024): figurinista, minissérie.
• Olívias (2024): assistente de figurino.
• Um Pai em Apuros (2024): equipe de figurino.
• Vivo ou Morto (2023): assistente de figurino, especial de fim de ano da TV Globo Minas.
• Comadres (2022): assistente de figurino, Especial de Natal da TV Globo Minas.
• Azul Celeste (2022): assistente de figurino, minissérie da Dromedário Cinema e Vídeo.
• O Toró, de Shakespeare (2023): figurinos da montagem teatral, em projeto de pesquisa e extensão da Escola de Design da UEMG.
• Backstage dos desfiles da Skazi e do coletivo Acrie na 30ª edição do Minas Trend.

Moda circular e mídia

• Proprietária e curadora do Brechó Garimpo Chic BH (desde 2024), com venda on-line e em feiras como o Circuito de Brechós.
• Entrevistada no programa Por Dentro dos Negócios, da TV Horizonte, sobre geração Z e mercado da moda: Shein, brechós e o futuro (2026).
• Palestra Moda que renasce: criatividade e sustentabilidade através do upcycling, na Escola de Design da UEMG (2026).
• Apresentação do trabalho Upcycling na Moda: Desafios do Design Criativo em congresso (2026).

Trajetória no mercado de moda

Somou 25 anos na área comercial do atacado de moda. Foi gerente de vendas no polo do Barro Preto, em Belo Horizonte, e promoveu a Moda Mineira em São Paulo. Representou uma marca de Divinópolis, teve loja própria de alfaiataria, moda atemporal e acessórios e atuou como consultora de vendas de moda feminina. Participou da criação de catálogos e lookbooks, do conceito ao casting e à escolha das fotos.

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Figurinista em Belo Horizonte: portfólio e contato · Currículo Lattes (CNPq) · Instagram @cidamiquelao

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