Por Alexandre Ribeiro, Conselheiro Estadual de Política Cultural no CONSEC MG na cadeira de Moda.
A função do vestir: proteger o corpo e permitir o movimento
Antes de a roupa virar um rótulo de vitrine, uma etiqueta de preço ou uma regra sobre o que é “de homem” e o que é “de mulher”, ela nasceu de uma necessidade muito simples e humana: a relação do corpo com a terra e com o clima.
Proteger a pele do sol forte, do vento frio, da chuva, do atrito com a vegetação e das intempéries sempre foi a primeira missão de qualquer pedaço de pano ou fibra trançada. Junto com essa proteção, havia uma segunda exigência fundamental: a liberdade de se movimentar. Para caminhar, trabalhar, agachar, plantar, colher e montar, a roupa precisava acompanhar a anatomia humana sem prender os movimentos.
Quando olhamos para a história das tecnologias têxteis sem os óculos do preconceito europeu, percebemos que o formato de uma peça de roupa sempre respondeu à geografia e ao tipo de atividade, e não ao gênero de quem a vestia.
A lógica da proteção e da ventilação
A engenharia da roupa se divide, na sua essência, em duas grandes formas de cobrir o corpo: as peças fluidas (como as túnicas, saias e mantos) e as peças bifurcadas (como as calças).
- A túnica e a saia: A estrutura fluida nada mais é do que um cilindro de tecido suspenso pelos ombros ou amarrado na cintura. Trata-se da forma mais simples, eficiente e ventilada de cobrir o corpo em climas quentes ou para atividades que exigem amplitude de movimento nas pernas. Durante milênios, em quase todas as civilizações antigas da África, da Ásia, das Américas e até da Europa continental, homens e mulheres vestiram túnicas e panos enrolados ao corpo. A diferença entre as peças não estava no corte da saia, mas no tipo de fibra, na cor e na ornamentação.
- A calça e a bifurcação: A calça comprida não nasceu para marcar a “masculinidade” de ninguém. Ela surgiu como uma ferramenta de proteção pura e simples. Quando povos nômades das estepes e montanhas precisaram domesticar o cavalo para transporte e sobrevivência, há mais de três mil anos, cobrir cada perna individualmente tornou-se uma necessidade vital. O atrito direto da pele com o dorso do animal causava ferimentos, e o vento frio das altitudes exigia vedação. Homens e mulheres dessas comunidades usavam calças de couro ou tecidos planos resistentes pelo mesmo motivo: proteção e funcionalidade na montaria.
O tecido plano denso, como a sarja pesada, o linho encorpado e, mais tarde, o jeans, cumpre essa função de escudo. É um material que isola o corpo do ambiente externo, resiste ao rasgo e protege a pele do desgaste físico.
O olhar das matrizes não ocidentais
Nas sociedades tradicionais que viviam nas Américas antes da chegada dos colonizadores, assim como nas diversas comunidades do continente africano, a relação com o vestuário seguia a sabedoria do território.
Em muitas dessas culturas, o corpo não era visto como algo que precisava ser escondido por uma moral rígida, nem dividido em categorias fechadas de “roupa masculina” ou “roupa feminina”. A vestimenta, a pintura corporal, o trançado de palha, as miçangas e as faixas de algodão tecido à mão tinham papéis ligados ao status comunitário, à proteção espiritual, ao clima local e aos rituais de passagem. A ideia de que um pedaço de tecido bifurcado pertence a um sexo e uma peça aberta pertence a outro simplesmente não existia nessas cosmovisões.
O que determinava a escolha do material e da forma era o respeito ao corpo e ao trabalho a ser feito. Uma pessoa que precisava entrar na mata ou lidar com o manejo de materiais duros usava proteção nas pernas; uma pessoa que precisava de frescor no calor do dia usava trançados abertos, tinturas vegetais e panos leves drapeados.
Entender a roupa a partir dessa origem nos mostra uma verdade libertadora: o tecido é uma camada de proteção do ser humano. A calça, a saia, o tecido plano e a trama aberta pertencem ao corpo que precisa deles, sem que nenhuma peça precise carregar uma certidão de gênero.
Como o padrão europeu dividiu o guarda-roupa
A divisão rígida entre o que é “roupa de homem” e o que é “roupa de mulher” não é um fato antigo e nem universal. Ela é fruto de um momento histórico bem localizado: a Europa moderna e a expansão colonial que se espalhou pelo mundo a partir do século XVI, consolidando-se no século XIX.
Quando os colonizadores europeus chegaram às Américas e ao continente africano, encontraram povos que lidavam com o vestir e com o corpo de forma integrada à natureza, ao trabalho e aos rituais. A imposição da fé, do trabalho exploratório e da moral europeia trouxe consigo a obrigação de vestir o corpo sob regras muito específicas. A roupa passou a ser usada como uma ferramenta de controle social e de hierarquia.
O homem funcional e a mulher ornamental
No final do século XVIII e início do XIX, com a Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo nas cidades europeias, ocorreu um fenômeno que os historiadores chamam de A Grande Renúncia Masculina. O homem da elite, que até então usava saltos, meias de seda, babados, rendas, maquiagem e cores vivas, “renunciou” ao direito ao ornamento e à cor.
A justificativa era econômica e moral. O homem precisava ocupar a esfera pública, a fábrica, o comércio e a política. Para isso, foi criada para ele uma verdadeira “farda de trabalho”: o terno sóbrio, em tons escuros como preto, cinza e marinho, feito em tecido plano denso (lã, sarja e linho encorpado). A cor viva e o detalhe delicado passaram a ser vistos como sinal de futilidade.
À mulher, por outro lado, foi reservado o espaço privado do lar. Sua roupa deveria demonstrar a riqueza do marido ou do pai. Por isso, a ela foram associados os volumes das saias, as armações, as rendas, as transparências e a fragilidade dos tecidos. A saia feminina dessa época não buscava dar liberdade de movimento, mas sim restringir o corpo ao ambiente doméstico.
A calça como símbolo de poder
A calça comprida, por ser uma peça prática e ligada ao trabalho de rua, à montaria e à circulação pública, tornou-se um privilégio exclusivo dos homens na sociedade ocidental. Quando as mulheres tentaram adotar a calça no século XIX para andar de bicicleta ou trabalhar nas fábricas, foram duramente criticadas e até punidas por “afrontarem a moral”.
Essa construção europeia criou um dogma falso: a ideia de que a força, a sobriedade e a proteção pertencem ao homem (traduzidas na calça de tecido denso e escuro), enquanto a delicadeza, o ornamento e a exposição pertencem à mulher (traduzidas nas rendas e transparências). Uma regra que silenciou saberes ancestrais e que até hoje influencia o que vemos nas prateleiras das lojas.
As contradições da moda atual: entre a proteção e a privação
Quando a gente anda pelas lojas ou repara no comércio do dia a dia, percebe que essa herança do passado continua ditando regras sem sentido para o nosso corpo. A indústria de moda moderna manteve essa divisão e, com isso, criou duas armadilhas que atrapalham tanto homens quanto mulheres.
A primeira armadilha é a que afeta as mulheres. Quando o mercado resolveu adaptar a calça comprida para o guarda-roupa feminino, muitas vezes tirou dela o que a peça tinha de mais valioso: a funcionalidade. É muito comum encontrar calças femininas feitas com panos tão finos, vazados ou transparentes — como a lese, a renda sem forro ou o crochê aberto — que não oferecem proteção real contra o frio, o vento ou o desgaste da lida. Isso sem falar nos bolsos, que são frequentemente costurados fechados ou feitos em tamanhos tão pequenos que não cabe nem uma chave. A peça ganha a forma de calça, mas perde a função de escudo.
A segunda armadilha é a que prende os homens. A eles foi negado o direito à leveza, à sensibilidade tátil e à vivacidade da vida. O guarda-roupa masculino virou uma repetição sem fim de tons escuros e fechados: o cinza, o azul-marinho, o marrom e o preto. Parece que o homem foi proibido de vestir a alegria de uma cor viva no calor do nosso verão mineiro ou de sentir o conforto de uma trama artesanal e respirável. Se um homem busca um tecido mais leve ou uma cor diferente, a sociedade logo questiona a sua escolha, como se o gosto pela beleza e pelo aconchego fosse exclusividade de um só gênero.
O resultado dessa conta não fecha. A mulher fica sem a proteção do tecido plano resistente quando precisa trabalhar, caminhar ou se proteger do tempo; o homem fica privado da poesia, do frescor e do afeto do tecido trabalhado. A moda atual continua vendendo a ideia de que a calça da mulher precisa ser delicada e a do homem precisa ser uma armadura sem vida, esquecendo que todo corpo humano sente calor, sente frio e busca conforto.
O que aprendemos com a sabedoria de outras matrizes culturais
Para entender como essa divisão da moda é limitada, basta olhar para além das fronteiras do Ocidente. Diversas culturas pelo mundo mantiveram formas de vestir que priorizam o respeito ao clima, a dignidade do ser humano e a beleza da matéria-prima, sem nunca precisar carimbar o tecido com regras de gênero.
Na África Ocidental, por exemplo, a tradição do tear artesanal produz tecidos planos estruturados e imponentes, como o Kente ou o Pano da Costa. Nesses territórios, os homens vestem grandes túnicas, mantos e conjuntos drapeados em amarelo, dourado, vermelho e azul-real. A cor viva, o brilho da fibra e o detalhe do tear não são vistos como algo “feminino”, mas sim como símbolos de nobreza, sabedoria, maturidade e respeito comunitário. O homem africano tradicional veste a cor com orgulho e autoridade.
Na Ásia, em países como a Índia, o uso de tecidos fluidos, envolventes e sem costura rígida é a forma mais inteligente de enfrentar o calor extremo. Peças como o Dhoti ou o Lungi — tecidos planos de algodão ou seda amarrados na cintura como saias ou drapeados — são vestimentas cotidianas dos homens. Eles circulam pelas ruas, trabalham e participam de cerimônias vestidos com a leveza da seda, bordas trabalhadas em fios nobres e cores abertas, provando que o conforto térmico e a elegância não dependem de calça comprida ou de tons escuros.
Nas Américas, entre os povos originários das regiões andinas e das florestas tropicais, a tecelagem em algodão cru, as faixas e os mantos geométricos sempre pertenceram a toda a comunidade. O tempo dedicado a trançar a fibra, tingir o fio com pigmentos da terra e criar padrões visuais era um ato de conexão com a natureza e com a memória dos antepassados.
Essas tradições nos ensinam uma lição valiosa: a proibição da cor, do ornamento e da fluidez no guarda-roupa masculino é uma invenção recente da Europa moderna. Quando abrimos os olhos para a sabedoria de outras matrizes, percebemos que o mundo sempre soube vestir o corpo com liberdade, acolhendo a necessidade de cada um sem preconceito.
O feito à mão e a busca pela autonomia do corpo
Trazer esse assunto para o debate hoje não é apenas reacender uma conversa antiga, mas olhar com maturidade para um incômodo que ainda persiste no nosso cotidiano. No Brasil, apesar dos avanços na liberdade de expressão e da presença cada vez mais natural das identidades da comunidade LGBTQIA+, a roupa ainda é um dos primeiros territórios onde o julgamento social se faz sentir.
A pergunta permanece atual nas ruas e no comércio de qualquer cidade brasileira: por que a escolha de um tecido, de um corte ou de uma cor ainda gera tantas dúvidas e reações quando desafia o padrão do que foi rotulado como “masculino” ou “feminino”?
Essa resistência acontece porque fomos educados a enxergar a roupa por meio de etiquetas e divisões prontas, e não pela sua verdadeira função. No entanto, é no fazer artesanal, no trabalho com as mãos e nas fibras naturais que encontramos caminhos de transformação e autonomia.
A tradição do tear, do crochê, do trançado, do bordado e do algodão cru — presente de norte a sul do país — não nasce das regras industriais de consumo que dividem o mundo entre o azul e o rosa. O artesanato e o design autoral nascem da relação direta da matéria-prima com o corpo, no tempo do afeto e do cuidado.
Trabalhar a moda a partir do tecido e da função é uma forma sincera de devolver a cada pessoa o direito de escolha:
- É permitir que o homem viva o frescor do tecido trabalhado, o conforto da trama aberta e a vivacidade das cores sem ter sua identidade questionada.
- É garantir que qualquer pessoa tenha acesso à proteção real do tecido plano denso, à durabilidade e aos bolsos práticos, sem precisar abrir mão de sua sensibilidade.
- É reconhecer que o corpo humano é plural e que a vestimenta deve servir às necessidades da vida, e não o contrário.
Pensar sobre “quem é o dono da calça” é um convite para desarmar certezas ultrapassadas com leveza e respeito. A roupa não tem gênero; ela tem história, tem matéria, tem utilidade e pertence, antes de tudo, à liberdade de quem a veste.
Por Alexandre Ribeiro, Conselheiro Estadual de Política Cultural no CONSEC MG na cadeira de Moda.





